Mais de 17 mil travessias de animais são registradas em pontes sobre cidade do MT
14/08/2026
(Foto: Reprodução) Câmeras flagram 17 mil travessias de animais por pontes instaladas sobre ruas
Jefferson Souza
Mais de 17 mil travessias de animais por pontes artificiais de dossel foram registradas em menos de dois anos em Alta Floresta (MT). O número é exibido em um painel instalado na região central do município e atualizado conforme novos registros são feitos pelas câmeras de monitoramento.
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Para atualizar o contador, um caminhão-guindaste entra em cena. Não se trata de uma operação relacionada ao desmatamento. Pelo contrário: o equipamento ajuda a dar visibilidade a um projeto de conservação da fauna amazônica.
O operador levanta o cesto da máquina com uma pesquisadora e uma secretária municipal de Meio Ambiente. Lá no alto, as duas atualizam o número de travessias registrado no painel.
Pontes sobre ruas conectam árvores e ajudam a proteger animais de atropelamentos
Jefferson Souza
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Diversidade
Entre os animais flagrados nas matas que cercam a cidade, que tem mais de 60 mil habitantes, estão seis espécies de macacos que ocorrem na área urbana. Entre as mais ameaçadas estão o primata que leva o nome da cidade, o zogue-zogue-de-Alta-Floresta, além do macaco-aranha-de-cara-preta, do bugio-ruivo-do-rio-purus e do sagui-de-Schneider.
À frente do Programa Alta Floresta sem Atropelamento está a bióloga Fernanda Abra, presidente do Instituto Reconecta. A pesquisadora ganhou destaque internacional pelo trabalho que transforma ciência em soluções práticas para reduzir os impactos de estradas e ferrovias sobre a fauna brasileira.
“Eu sou uma ecóloga de estradas, muito acostumada a trabalhar mais com ambientes rodoviários e ferroviários, e recebi um desafio, um chamado do pessoal de Alta Floresta para olhar a realidade que eles tinham aqui. Fiquei realmente surpresa de ver a quantidade de animais circulando pela cidade, muitos primatas, inclusive primatas ameaçados de extinção”, explica Fernanda.
Cidade instala pontes para macacos e registra mais de 17 mil travessias de animais
Jefferson Souza
Muitos desses animais são atropelados à luz do dia. Diante do problema, uma das alternativas encontradas foi criar “avenidas” que conectam as árvores.
“A gente trouxe uma solução, que são as pontes artificiais de dossel, as pontes de macaco, que a gente já instalou em rodovias federais e trouxemos para dentro da cidade”, explica Fernanda.
A primeira fase do programa começou em 2024, com a instalação de sete pontes artificiais, que medem entre 20 e 25 metros de extensão.
“Para o primata que passa a maior parte da vida na copa das árvores, é um desafio imenso atravessar uma rua. Para algumas espécies, pode ser uma barreira intransponível de asfalto, calçada e movimento de veículos. Um ambiente hostil para um animal que tem uma ecologia totalmente voltada para a copa das árvores”, diz Fernanda.
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Algumas espécies flagradas usando as pontes são estritamente arborícolas, ou seja, quase nunca descem da copa das árvores. Sem as estruturas artificiais, esses animais podem ficar isolados.
“Os animais precisam se deslocar para achar comida, encontrar água, parceiro sexual, marcar seu território. Quando esses animais ficam isolados, isso é um impacto muito grande para aquela população”, explica Fernanda.
Além do isolamento, há outro risco: os acidentes de trânsito.
“Em uma eventual tentativa desesperada de acessar o fragmento florestal que está do outro lado da avenida, o tráfego pode ser implacável com esses animais, colocando em risco não só a vida dos animais, mas a de motoristas. Fora os inúmeros prejuízos que um acidente traz”, explica a pesquisadora.
Duas câmeras de monitoramento foram instaladas em cada “ponte de macaco” para registrar a movimentação da fauna.
“Nos locais onde temos pontes, nós zeramos os atropelamentos”, ressalta Fernanda.
Segunda etapa
Neste mês de agosto, mais oito pontes de dossel estão sendo instaladas em Alta Floresta. A equipe do Terra da Gente acompanhou de perto os mutirões de construção e instalação das estruturas.
Veículos de imprensa do Brasil e de outros países também foram ao município para conhecer o trabalho desenvolvido na cidade, que, em um passado recente, enfrentou graves problemas relacionados ao desmatamento.
Pontes sobre ruas conectam árvores e ajudam a proteger animais de atropelamentos
Jefferson Souza
“Esse é mais um dos projetos que ajudaram a cidade a reduzir o desmatamento, reduzir as queimadas e recuperar mais de 5 mil hectares de APP (Áreas de Preservação Permanente) em todo nosso território. Só conseguimos isso com a participação de toda a comunidade”, explica Gersilene Meira Leite, secretária de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Alta Floresta.
Pesquisadora premiada internacionalmente
Em 2019, Fernanda recebeu o Future for Nature Award, na Holanda. O prêmio reconheceu o trabalho voltado à proteção da fauna brasileira e às estratégias para reduzir os atropelamentos de animais nas rodovias.
Cinco anos depois, a pesquisadora recebeu o chamado “Oscar da conservação”: o Whitley Award, do Reino Unido, considerado um dos principais prêmios mundiais relacionados à natureza.
Fernanda foi premiada pelo trabalho desenvolvido no Projeto Reconecta, iniciativa que busca conectar áreas de floresta e permitir que animais arborícolas atravessem rodovias com segurança por meio de pontes de dossel.
Cidade instala pontes para animais e evita atropelamentos
Jefferson Souza
Em 2026, Fernanda também foi reconhecida pela National Geographic Society com o Wayfinder Award.
A premiação destacou novamente sua atuação para tornar as estruturas de transporte mais compatíveis com a conservação da biodiversidade e reduzir os impactos das estradas sobre a vida selvagem.
Em Alta Floresta, as pontes de dossel já fazem parte da paisagem e, principalmente, da rotina dos animais. Cada travessia registrada pelas câmeras representa mais do que um número no painel: mostra que é possível encontrar caminhos para que a cidade avance sem impedir a passagem da vida silvestre.
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